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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Samaadhi e percepção do Nirvana

Imagem: Postura do Guerreiro (Flickr, CreativeCommons)
Samaadhi não é uma descoberta de algo novo, inédito; é uma revelação do que você sempre soube, é entrar em contato com algo que sempre esteve lá. Você nunca esteve procurando por alguma resposta e de repente, “caiu a ficha”? É simplesmente quando tudo se conecta: entendi! As percepções maravilhosas do Nibbana não são diferentes de quando você se levanta pela manhã e se espreguiça na varanda de casa, de frente para um jardim florido, raiando o sol com um calor morno. Ou quando você está contemplando a chuva que traz vida nova… é a Natureza (YourSelf) dentro de você.
  1. Entrevista com Monja Coen sobre a Felicidade;

domingo, 9 de dezembro de 2012

[EU MAIOR] Entrevista com Monja Coen

Imagem: oogoom - Roanji Zen Temple in Kyoto (Flickr, CreativeCommons)
Trechos da entrevista com Monja Coen, que fala um pouco sobre seu caminho e da importância do esforço pessoal. Documentário EU MAIOR, sobre autoconhecimento e busca da felicidade. Saiba mais em: www.eumaior.com.br Monja Coen Sensei ordenou-se monja zen-budista em 1.983 em Los Angeles, na Califórnia (E.U.A.). “Foi a primeira mulher, a primeira monja e a primeira de descendência não japonesa, a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil.” Fonte: Monja Coen Sensei


EU MAIOR–Entrevista com Monja Coen
“Quanto mais você quiser empurrar alguém pela porta,
mais essa pessoa se afasta.” 
Monja Coen
Monja Coen Sensei fala algo muito importante: obteve experiências extra-sensoriais sem o uso de chás ou drogas. Existe uma geração de pessoas que são fascinadas por assuntos místicos, anjos, deuses e, porque não dizer demônios? Não digo que são inexistentes, porém são apenas nomes que damos a determinadas formas ou tipos de energia cósmica; em suma, são diferentes manifestações da Natureza ou Deus, quiçá Universo. Muitas mentes estão sendo afetadas por uma forte ideia ateísta materialista e veem o mundo apenas como formas ou objetos – de desejo ou repúdio. Visão extra-sensorial é uma visão além da capacidade do olho e nada mais; nós vemos com a consciência, como nos sonhos.

O que quero dizer é que não é preciso tomar chás ou alucinógenos para ver anjos e demônios, eles estão aqui e agora, manifestando-se a todo momento em frente aos nossos olhos. Outro nome que podemos dar para demônio é psicopata,  porque falta inteligência e sobra razão. Outro nome que podemos dar a anjos é heróis, porque são pessoas de valor, caráter, moral e ética. Ou simplesmente, anjos são seres que amam e demônios seres que não amam, que em termos científicos significa: anjos são seres humanos (dotados de sabedoria ou inteligência) e demônios animais racionais (dotados de conhecimento ou razão). Os demônios têm razão, os anjos estão certos – ter razão nem sempre é estar certo

O objetivo da meditação é ir além de anjos e demônios, de bem e mal, porque são partes da Natureza dialética ou existência. A Suprema Sabedoria é inexistente, como o cosmos que a tudo permeia; quando se diz inexistente significa que é a única coisa que existe, assim é como eu vejo. Quando estamos em contato com a Realidade (que na cultura Hindu chamamos Brahman) nós estamos além da existência, não temos problemas, sentimo-nos felizes porque Brahman ou Deus é felicidade. Dizer que Deus é amor parece-me equivocado, porém sem amor (verdadeiro) não há felicidade. Por isso, embora a felicidade seja um estado de espírito não significa que uma pessoa não precise de bens materiais, porque são da existência.
“A prática do Zen é árdua e ela depende de cada pessoa.”
Coen Sensei
Quem procura a verdade é como quem procura enxergar os próprios olhos. Perguntar “Quem sou eu?” significa procurar os próprios olhos. Portanto, não é uma indagação que possa ser respondida pela razão, como os olhos não podem ser encontrados pela visão. “Quem sou eu” não tem resposta, somente o silêncio poderá responder. Ninguém pode lhe mostrar a verdade, como ninguém pode lhe mostrar os próprios olhos, porque você apontará para você e o eu será reconhecido como eu – como em um espelho, os olhos que se vê, não são os olhos que veem. Jesus de Nazaré diz algo assim: “buscai a verdade até a encontrar, e ela vós fará livre.” Mas agora lhes deixo as orientações de Ven. Shakyamuni Buddha:
Pergunta [o discípulo]: “Ó Tathagata [Buddha], meu Senhor, ensina-me riddhipada (o modo de alcançar poder mental sobre a matéria).”
Disse o Bem-Aventurado [Buddha]: “Há quatro meios pelos quais se adquiri riddhi (domínio do espírito sobre a matéria):
  1. Impedir que surjam más qualidades;
  2. Despojar-se das más qualidades já surgidas;
  3. Produzir a bondade que ainda não existe;
  4. Buscai com sinceridade e perseverai em vossa busca. Ao final encontrareis a Verdade.”
(Assim Falou Buddha, download)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

[PALESTRA] Monge Genshô fala sobre A Dimensão Suprema


Palestra do Monge Genshô (autor do livro O Pico da Montanha – É Onde Estão os Meus Pés), Sensei, falando sobre a Dimensão Suprema, durante uma visita ao Jisui Zendô - Sanga Águas da Compaixaõ no dia 11 de novembro de 2012.





Nessa palestra Genshô Sensei esclarece algo muito importante sobre o Budismo, que vem causando problemas e confusões na mente das pessoas. Quem já tenha algum contato com a filosofia budista deve conhecer As 4 Nobres Verdades (Dukkha Arya Satya), que constitui os 4 pilares  que sustentam muitas vertentes budistas. Senhor Buda fala nesses ensinamentos sobre Dukkha, que é comumente traduzido como ‘sofrimento’. No entanto, uma tradução mais correta é ‘insatisfatório’. Essa visão imprecisa deu início a muita filosofia “niilista” como a de Schopenhauer – e quem sabe não tenha levado Nietzsche à loucura?

Insatisfatório porque tudo é impermanente e, quando nos apegamos a algo, sofremos. A partir do entendimento da relação entre insatisfatório e as dimensões suprema e histórica é que podemos entender melhor sobre o que se trata a Iluminação – que não é um tipo de aquisição de conhecimento que você não tem; é uma compreensão da Natureza (Interna e Externa). Cada um de nós não é uma entidade, mas um fenômeno ou interação; neste sentido, ‘vazio’ como no Sutra do Coração.

Genshô Sensei é o orientador espiritual da Comunidade Zen Budista de Florianópolis e grupos afiliados e é autor do livro "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés"

quinta-feira, 7 de junho de 2012

[OS PENSADORES] Alternar o Recolhimento e a Vida Social

Este é o último artigo sobre os escritos de Lúcio Aneu Sêneca, retirado da coleção Os Pensadores. No primeiro artigo falamos sobre A Superioridade e o Desprendimento do Sábio, no segundo sobre Não se Obstinar Contra as Circunstâncias, e agora vamos falar sobre o equilíbrio entre vida íntima e social, bem como divertimento e trabalho. Em meu ponto de vista, Sênica é até um pouco liberal ou sincero demais – de modo que o limite moderado pode nos fazer falta e a mente confusa não o encontrará em determinadas circunstâncias e meios sociais. Aproveitei o tema para inserir um trecho dos escritos do monge zen budista, Takuan Soho, com o parágrafo destacado; convém saber que o monge se refere ao Japão de 1600 – mas ainda assim atual.

Fotografia: Xava Du (Flickr, CreativeCommons)

“É preciso frequentemente recolhermo-nos em nós mesmos: pois a relação com pessoas diferentes demais de nós perturba nosso equilíbrio, desperta nossas paixões, irrita nossas restantes fraquezas e nossas chagas não completamente curadas. Misturamos, todavia, as duas coisas: alternemos a solidão e o mundo. A solidão nos fara desejar a sociedade e esta nos reconduzirá novamente a nós mesmos; elas serão antídotos, uma à outra: a solidão, curando o horror à multidão, e a multidão, curando nossa aversão à solidão.”
“O corpo é como um sonho. Quando percebemos esse fato e acordamos, não sobra sequer um vestígio. Quanto tempo ainda temos para procurar? 

Não era sem razão que os antigos passavam a noite em claro, acendendo as lâmpadas e divertindo-se nas horas de escuridão. 

Neste ponto, pode-se cair em erro. Deve haver critérios para a diversão; se houver, ela não fará mal. A pessoa que não tem critérios enlouquece. Se a pessoa, ao se divertir,  não cai em em erro, ela não transgride esses critérios. O que chamamos de critérios são, em geral, limites fixos para todas as coisas. Como os nós do bambu, a maior parte das diversões devem ter limites. Não é bom transgredí-los. 

A nobreza cortesã tem as diversões da corte, a casta dos samurais tem as diversões dos samurais e os sacerdotes têm as diversões dos sacerdotes. Cada um deve ter a diversão que lhe cabe.

Pode-se dizer que o envolvimento em diversões que não concordam com a posição social é um erro de critério. A nobreza cortesã tem a poesia japonesa e a chinesa e os instrumentos de sopro e de cordas. Com essas coisas, não haverá nada de errado em que eles passem a noite em claro. É razoável que também a casta dos samurais e os sacerdotes tenham diversões que lhe são apropriadas.

A rigor, não deveria haver diversão para os sacerdotes. Diz-se, porém que ‘em público, nem uma agulha passa; mas, em particular, passam uma carruagem e seu cavalo’. Isso significa que, compreendendo a mente do ser humano e reconhecendo que o mundo degenerou, devemos deixar que também eles tenham as suas diversões. Deve-se, permitir que, reunindo-se na quietude noturna, eles componham poesia chinesa e japonesa, e até mesmo versos ligados. Num outro nível, não é descabido que eles inclinem o coração para a Lua e as flores de cerejeira e, acompanhados por jovens de quatorze ou quinze anos, dirijam-se para um lugar onde se possa ver a Lua sobre as flores; e, lá, partilharem eles algumas taças de saquê. Não é de mau gosto que tenham também um pequeno tinteiro e papel para escrever.

Mas nem essas coisas são consideradas apropriadas para um sacerdote que aspira ao espírito religioso. Que dizer, então, de outras versões menos requintadas?

Não seria motivo de surpresa se a nobreza e os samurais, percebendo que este mundo mutável não passa de um sonho, acendessem as lâmpadas e passassem as noites em diversões [carpe diem].

Há aqueles que dizem: ‘Tudo é um sonho! Só nos resta a diversão!’ Essas pessoas levam a mente além dos limites, afundam-se nos prazeres e vão até os extremos da luxúria. Embora citem as palavras dos antigos, a mente delas está tão longe da mente dos antigos quanto a cinza está longe da neve.'”

SOHO, Takuan. A Mente Liberta: Escritos de um Mestre Zen a um Mestre da Espada. São Paulo: Editora Cultrix, 1998. p.73-75

Alternar o Trabalho e o Divertimento

“Nem mesmo é bom ter sempre o espírito igualmente ocupado: é preciso saber distraí-lo com divertimentos. […] É preciso saber recrear  o espírito: ele se mostrará, depois de um repouso, mais resoluto e mais vivo. […] Quando o esforço se prolonga demais ele acarreta à inteligência uma espécie de enfraquecimento e de abatimento. Todavia, abusando do divertimento, o espirito perderá sua elasticidade e seu vigor: o sono também é necessário para restaurar nossas forças; mas se ele continua dia e noite, é a morte. Suspensão e supressão não são absolutamente sinônimos.

É preciso governar nosso espírito e conceder-lhe de tempos em tempos um descanso que fará sobre ele o efeito de um alimento restaurador. É preciso, igualmente ir passear em pleno campo, pois o céu aberto e o ar puro estimulam e avivam a inteligência; algumas vezes uma alternação, uma viagem, uma mudança de horizontes, assim como uma boa refeição com um pouco mais de bebida do que costume, lhe darão um novo vigor. Pode-se mesmo, por vezes, chegar até a embriaguez; não, de modo algum, para nele mergulhar, mas para nela encontrar a calma, pois ela dissipa as inquietações, modifica totalmente o estado da alma e afasta as tristezas, assim como cura certas doenças. O inventor do vinho não foi chamado “Liber” porque ele solta a língua, mas sim porque liberta a alma das inquietações que a escravizam; e a reanima e fortalece e dispõe para todas as audácias.

Mas o vinho, assim como a liberdade, não é salutar a não ser tomado com medida. Não se deve recorrer a ele muito frequentemente, a fim de não adquirir este detestável hábito, é preciso, todavia, por um instante afrouxar as rédeas à exuberância e à liberdade e fazer uma interrupção momentânea à sobriedade austera demais. Porque se acreditamos no poeta grego, “É doce algumas vezes perder a razão”, ou em Platão: “É em vão que o homem de sangue frio bate à porta das musas”;  e Aristóteles: “Não se vê jamais um gênio que não tenha seu grau de loucura”. Somente a linguagem de uma alma exaltada pode atingir o majestoso e o grandioso. Que ela desdenhe os sentimentos vulgares e batidos; que um entusiasmos sagrado o anime e a arrebate: somente depois ela pronunciará palavras divinas pela boca de um mortal. É impossível alcançar o sublime e o inacessível, enquanto a alma pertencer à si mesma: é preciso que ela se desvie de seu caminho habitual, se liberte: e que, mordendo o freio, arrebate seu cavaleiro e o faça subir a alturas, onde ele jamais se arriscaria por si mesmo.

Todavia, dize a ti mesmo que nenhum destes meios é suficientemente poderoso para salvaguardar um bem tão frágil, se não cercamos com a mais ativa e a mais zelosa vigilância nossa alma, sempre pronta a se deixar desviar.”